18
Jul

#Critica: O Homem duplicado

Jéssica Pagliai @ Cinema


You can’t escape yourself

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Mais uma crítica, baseada em livros… Hehehe

Dessa vez e no homônimo de José Saramago, O Homem Duplicado traz um ambiente surrealista como a atmosfera central. Num mundo mágico e em dois extremos completamente fora de sintonia, onde de uma forma ou outra acabamos por nos perder e nos frustrar… E incrivelmente nos deixa “presos” mesmo depois dos créditos finais.

Neste longa melancólico, o professor universitário de história Adam Bell Jake Gyllenhaal leva uma vida relativamente comum em Toronto, no Canadá. Quando não está dando aulas na universidade, está entediado no seu apartamento sozinho ou então com sua namorada Mary Mélanie Laurent. Por falta de palavras melhores, a vida de Adam é: CHATA! Mas, as coisas mudam quando um colega do seu trabalho o recomenda um filme independente e, mesmo ele não sendo um grande apreciador de filmes concorda em aluga a indicação. E é então que ele percebe algo estranho em algumas cenas: um dos atores com o nome Anthony St. Claire se parece (e muito) com ele! E nessa estranha descoberta nasce uma obsessão, e situações que nunca teria esperado. Num enredo torcido, recursos visuais e temas filosóficos, este filme é um caos total ou, como diz a frase de abertura “O caos é a ordem ainda por decifrar”.

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A combinação excepcional de todos os envolvidos no filme, desde Jake que prova que é um grande e diversificado ator já que consegue trabalhar tanto em dramas como comédias, Sara Gadon e sua intensidade notável, o diretor canadense Denis Villeneuve que fez uma marca entre os espectadores americanos… E onde, até mesmo os aspectos mais interessantes e técnicos fizeram a diferença, como a música extraordinária de Danny Bensi e Saunder Jurriaans que prolongam o mistério da narrativa, a cinegrafia cinzenta e amarelada assustadoramente sombria de Nicolas Bolduc e a edição, primorosamente feita por Matthew Hannam… O roteiro de Javier Gullon deixam ainda, algum significado por detrás desses eventos até o telespectador e, embora existam alguns indícios muito sutis para a ideia geral da história, não há uma resposta clara para as muitas voltas dentro dos 90 minutos de filme. O que deixa a história em aberto para o espectador. Sim, tudo isso e principalmente o elemento de urgência e os pedidos de explicações que o envolvem, fazem desse thriller psicológico, um filme perturbador.

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Enquanto que traz confusão, é muito bom em dar ao espectador a vontade de fazer uma reflexão séria. Qualquer coisa além disso, pode reunir algumas respostas negativas, especialmente se você não está prestando atenção. Enemy funciona trazendo algo desconfortável, mas que é capaz de nos prender enquanto pensamos que, no fim teremos os por quês… E que quase nos exige assistir uma segunda ou mesmo terceira vez para tentarmos ver algo diferente!

Talvez seja melhor para parafrasear o que um dos revisores escreveu: tentar passar por esse filme como se através de um sonho, através da realidade aumentada. Realidade aprimorada sente muito bem como o contrário, e essa é a sensação do filme. A partir da escolha de cores para agir à ambivalência sobre a identidade, o resultado é tão hipnótico como é inquietante. A história é muito simples disse muito claramente, mas subjacente é a complexidade de um pesadelo. O desconforto se sente como uma única emoção, esticado. Algo sobre esse filme funciona maravilhosamente, e como com o melhor da literatura que narra nas entrelinhas Nem sempre fui capaz de dizer por que, que foi da mesma maneira para mim com a aranha tema: ele trabalhou antes de eu entender.

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#spoiler

Então, para resumir e tentar entender: Desta vez, vou ter que fazer diferente, já que este filme é tão complexo, vou tentar dizer o que percebi dele, com todos seus elementos!

O tema traz um homem perdido em um mundo de suas próprias escolhas, seus próprios desejos e vícios. Sua luta constante é a mesma que a de todos os outros: entre sua mente e emoções e onde cada um o vê de uma forma diferente, ele descobre que seu próprio inimigo é ele mesmo. Este homem é uma pessoa com duas faces (como toda a publicidade do filme retrata) o que nos prova na história em si tanto na aparência, quanto cicatrizes, confrontos e diálogo com a própria mãe. Então, qual é a verdade, você deve estar se perguntando assim como eu, ao acabar o filme!?

O que provavelmente é feito primeiro é construir um mundo realista dele, que na verdade, é um sonho… Há muitas dicas e pistas deixadas pelo diretor (como as aranhas, a fotografia do filme no geral…) onde o começo é nos mostrado uma mulher grávida, um homem (onde ambos não aparentam ser os mesmos e são os personagens principais) e uma realidade a qual quer se escapar…

Por haver uma parte presa, é criado um alter ego, um outro eu em que pode tentar viver uma realidade totalmente diferente, aquela dos impulsos livres, uma realidade sem sua esposa. E nessa ânsia e desejo, uma aranha esmagada sempre é aparente (onde a aranha simboliza sua esposa, seu relacionamento e compromisso). Então, o professor é a parte de si que pode enganar livremente, e pode se perceber isso pois Mary deixa sempre Adam durante a noite. Ainda, há ainda um diálogo da Helen em que pergunta a Anthony: “Você está vendo ela novamente, não é?” depois que ele desliga o telefone. Apesar de ser um homem livre e sem qualquer culpa, há também consequências de uma vida sem efeito real na sua própria, como nenhuma satisfação (sua aparência e seu estado psicológico quase deprimido retratar essa parte). Seu apartamento também conta este vazio, sem móveis, quase como um quarto de hotel, sendo apenas um espaço utilizável. Assim, nessa sua busca de liberdade e capaz de enganar está buscando algo mais, alguém que ele pode se relacionar com sentimentos, esposa e sua vida outra self. Já a outra parte dele, casado e ligado é procurar a aventuras sexuais, ego e liberdade. No final, como uma parte de um homem morre, o outro fica com uma “realidade escolhida” uma escolha que todo homem tem de fazer. Ele faz amor com sua mulher, toma o lugar de um homem casado, e se torna apenas isso. Com isso, ele escolheu enfrentar a aranha, que é o seu compromisso e sua esposa. Mas a atração da chave deixada para trás está sempre lá…

Sua estreia aqui em Portugal foi no dia 18 de Junho (que coincide com a data do falecimento de José Saramago, e no Brasil em 19 de Junho.

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O homem que acabou de entrar na loja para alugar uma cassete vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso… 

Beijos.

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